A procura diária por uma sintonia, a tal busca por um posto mágico, de que fala Sam Shepard, que nos satisfaça os anseios das nossas vidas. É o que procuro na rádio quando a sintonizo a cada dia.António Cartaxo é, a par de Francisco Amaral e da sua "Íntima fracção", a voz ao fim do túnel... inconfundível, diria mesmo invulgar, suave, segura, ondulatória, um tanto ou quanto encantatória. É com toda esta envolvência e classe, de grande contador de histórias, num misto de simplicidade e sensibilidade que a música é-nos apresentada e explicada, despindo-a da aura de distanciamento e de uma certa frieza. Torna-se quente e próxima de nós.
Embora, já tivesse ficado impressionado por anteriores colocações de dilemas contemporâneos de como pronunciar correctamente os nomes dos compositores clássicos, como o do compositor da Paixão segundo S. Mateus, Johann Sebastian Bach? Com todo o ruir teotónico do som germânico mais puro e enraizado ou simplesmente (e à portuguesa) João Sebastião Bach? Diremos Dvorak (Devoraque) ou pronunciar correctamente Dvorak (devorjaque)? Foi a emissão de hoje, que me fez prestar um tributo a este singular comunicador.
Romancistas, filósofos, poetas, categorias intelectuais onde figuram Rousseau, Nietzsche, Anthony Burgess, José Gomes Ferreira. Sabem o que liga todos estes nomes? Todos eles compuseram música! Jean-Jacques Rosseau chegou a julgar-se mais compositor que filósofo. Compôs entre outras obras a primeira ópera cómica francesa e trancreveu para flauta a Primavera das 4 estações de Vivaldi. Nietzsche hesitou muito tempo entre ser músico ou filósofo. Era um notável pianista, embora como compositor alguém o considerasse um Schumman de segunda categoria, compondo, entre outras, uma miniatura ao piano denominada "Por ali corre um ribeiro". Também Katherine Mansfield hesitou entre a pena que a tornou célebre e o violoncelo.
Surpreendente... ou talvez não... nada como um bom Cartaxo, logo pela manhã, antes de entrar ao serviço, para deixar um indivíduo bem disposto.
O erudito toma forma através das Grandes Músicas, na Antena 1. Ou então, se isso não for possível, entrar Em sintonia, na Dois. O som tem a dimensão do infinito, mas para quem se deixe limitar pela imposição da imagem, ainda assim, é possível manter uma certa dimensão de transcendência nas Grandes músicas da RTPN.
No comments:
Post a Comment