Jê Pê e suas Pêrolas

Rapaz de muitos talentos, estudou jornalismo, direito da comunicação, escrita de argumento, saxofone e língua árabe, JP Simões é a figura boémia da música portuguesa. Dos Pop dell’arte aos Belle chase Hotel, de Tati até à fixação por Buarque de Hollanda, do Brasil, é o gajo que faz aquela fantástica harmonia com uma nona que vai numa improbabilidade contra todas as regras harmónicas duma escala menor que passa para maior e dá numa cena fantástica. Exemplo: o êxito que teve no falhanço do seu disco a Ópera do falhado.
No único concerto em que o vi, à frente do Hotel, foi destesticulante ouvir a sua personagem em palco, a sua marca registada. Era aquele que, como eu, não gosta daquela falsa comunicação porreirista do "Oi pessoal, adoro-vos!" ou de dizer uma treta qualquer, habitual, e prefere dizer uma treta sua, expondo a sua disposição e contando umas histórias de forma a introduzir as músicas, como a do lado beirão Mlerifdadiano de fazer música sobre o construtor civil com betoneiras no palco e a cantar coisas como:

“De manhã quando o sol arrebita
vou p’rá obra com a marmita
numa mão o salpicão
e na outra o garrafão”.

... tudo isto de copo na mão e cigarro no canto da boca, terminando com um "Portugal é um penico!"

Era a fase do bigode. Agora, em 1970, o que é que aconteceu ao teu bigode?

"Sabes que os bigodes, com o tempo, começam a ficar cheios de sopa juliana, de caldo verde e a coisa começa a ficar pior. Quando me apareceu um cogumelo no bigode, tive que o cortar, porque estavam a nascer coisas que eu já não queria no bigode. Equívocos cogumelos nasceram do meu bigode, e deixei de me dar tão bem com ele. Corria o risco de me transformar num bigode, e eu não queria de modo nenhum transformar-me num bigode. Não é que o meu amor-próprio seja enorme, mas há limites. E acho que tenho conseguido, o que é que te parece? Eu acho que sim."

Eu também. E assim o comprova este seu poema:

Se eu por acaso (te vir por aí)

Se eu, por acaso te vir por aí
Passo sem sequer te ver
Naturalmente que já te esqueci
E tenho mais que fazer
Quero que saibas que cago no amor
Acho que fui sempre assim
Espero que encontres tudo o que quiseres
E vás para longe de mim.

Se por acaso (me vires por aí)

Se por acaso me vires, por aí
Disfarça, finge não ver,
Diz que não pode ser,
Diz que eu morri
Num acidente qualquer
Conta o quanto quiseste fazer
Exalta a tua versão,
Depois suspira e diz que esquecer
É a tua profissão

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